quinta-feira, 26 de abril de 2012

A Grande Pergunta


 Eu sabia que haveria muitas coisas interessantes para ver, mas não queria respostas pequenas. Eu queria “A Grande Resposta”. De modo que pedi a meu anfitrião que me mostrasse a Morada de Deus. E lá me sentei, perfeitamente disposto a esperar pela grande resposta.
Permaneci em silêncio o dia todo, noite adentro. E olhei-O nos olhos. Creio que Ele também estivesse me olhando nos olhos. Tarde, bem tarde da noite, pensei ter ouvido uma voz: “Quem você está deixando de fora?” Olhei em volta. Ouvi novamente a voz “Quem você está deixando do lado de fora?” Seria minha imaginação? Logo a voz estava por toda volta, às vezes sussurrando, às vezes gritando. “Quem você está deixando do lado de fora?” “QUEM VOCÊ ESTÁ DEIXANDO DO LADO DE FORA?”
Estaria eu enlouquecendo?
Consegui me levantar e corri para a porta. Acho que queria o conforto de um rosto humano ou de uma voz humana. Cheguei ao corredor onde ficavam as celas dos monges. Bati numa delas.
- O que você quer? – veio uma voz sonolenta.
- Quem eu estou deixando de fora?
- Eu – veio a resposta.
Fui até outra porta.
- O que você quer?
- Quem eu estou deixando de fora?
- Eu.
Uma terceira cela, uma quarta. Em todas a mesma coisa.
Pensei comigo mesmo: “Estão todos preocupados demais consigo mesmos”. Deixei o mosteiro desgostoso. Justo então o sol começava a raiar. Eu nunca antes falara com o Sol, mas me vi suplicando:
- Quem eu estou deixando de fora?
E também o Sol respondeu:
Aquilo acabou comigo. Prostrei-me no chão. E a própria Terra então disse:
- Eu.


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quinta-feira, 12 de abril de 2012

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Espelho



O Imperador chegou certa vez a uma lagoa e parou para ver seu reflexo nas águas paradas.
- Este reflexo sou eu? – perguntou a seu companheiro.
- Não, meu senhor. Não é senão uma imagem vossa.
- E como a água mantém minha imagem?
- Ela a mantém – replicou o companheiro – graças a uma película que é como espelho.
- E onde os encontramos, essa lagoa e eu?
Seu companheiro enfiou a mão na água e borrifou o rosto do Imperador.



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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Perguntas


Lá existe um monge que nunca oferece conselhos; ele só faz perguntas. Mas me informaram que as suas perguntas podem ser muito profícuas, de modo que resolvi procurá-lo.


- Sou abade de uma paróquia – disse. – Estou aqui em retiro. O senhor poderia me dar uma pergunta?


- Ah, sim – respondeu ele. – Minha pergunta é, “Do que eles precisam?


Fui embora desapontado. Passei algumas horas pensando na pergunta e elaborando respostas, mas acabei decidindo procurá-lo outra vez.


- Perdoe-me, talvez eu não tenha me explicado muito bem. A sua pergunta me foi útil, mas eu não estava muito interessado em pensar sobre o meu trabalho durante o retiro. Pretendia refletir com maior seriedade sobre minha própria vida espiritual. O senhor poderia me dar uma pergunta para a minha vida espiritual?


- Ah, compreendo. Então minha pergunta é, “Do que eles realmente precisam?”



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quinta-feira, 29 de março de 2012


A Menor Moeda


O Mestre costumava perambular pelas ruas nos dias de feira a fim de ser apontado como um idiota: não importava quantas vezes as pessoas lhe apresentassem uma moeda grande e uma pequena, ele sempre escolhia a menor. Até que um dia um homem bondoso lhe sugeriu:


- Mestre, você deveria aceitar a moeda maior. Dessa forma teria mais dinheiro e deixaria de ser motivo de chacota.


- Isso talvez possa ser verdade – concordou Mestre. – Mas se eu sempre escolhesse a moeda maior, as pessoas deixariam de me oferecer dinheiro para provarem que sou mais idiota que elas. E então eu não teria dinheiro algum.


 
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quinta-feira, 22 de março de 2012

Grão de mostarda


Krisha Gotami, uma jovem mulher que viveu na mesma época que o Buda, teve um filho primogênito que com cerca de um ano ficou doente e morreu. Acometida pelo pesar e agarrando o corpo da criança, perambulou pelas ruas implorando a todos que encontrava um remédio para restituir seu filho à vida. Alguns a ignoravam, outros riam dela, outros ainda pensavam que era louca, mas finalmente encontrou um sábio
que lhe disse que a única pessoa no mundo que podia realizar o milagre que ela buscava era o Buda.
Assim ela foi até o Buda, deitou o corpo da criança a seus pés, e contou-lhe sua história. O Buda ouviu com infinita compaixão. Então ele disse suavemente:

 Há apenas um modo de curar sua aflição.” Vá para a cidade e me traga uma semente de mostarda de uma casa onde nunca tenha ocorrido um falecimento”.


Krisha Gotami sentiu-se exultante e partiu imediatamente para a cidade. Parou na primeira na primeira casa que viu e disse: “O Buda me pediu para vir buscar uma semente de mostarda de uma casa que nunca conheceu a morte”.


“Muita gente morreu nesta casa”, contaram-lhe. Ela passou para a casa seguinte. “Houve inúmeras mortes em nossa família”, disseram-lhe. E assim foi na terceira e quarta casas, até que ela percorreu a cidade toda e percebeu que o requisito do Buda não podia ser cumprido.


Tomou o corpo de seu filho, levou-o à sepultura e disse-lhe adeus pela última vez. Voltou então para o Buda. “Você trouxe o grão de mostarda?” ele perguntou.


“Não, disse ela. Começo a entender a lição que está tentando me ensinar. O sofrimento me cegou e eu imaginei ser a única pessoa que sofria nas mãos da morte.”


“Por que você voltou?” perguntou o Buda.


“Para lhe pedir que me ensine a verdade”, ela respondeu, “sobre o que é a morte, o que pode haver por trás e além dela, e o que há em mim, se é que há algo que não morrerá”.


O Buda começou a ensinar-lhe: Se que saber a verdade da vida e da morte, precisa refletir continuamente sobre isto: há somente uma lei que nunca muda no universo – é a de que todas as coisas mudam, todas as coisas são impermanentes. A morte de seu filho ajudou você a ver que o reino em que estamos – samsara – é um oceano de insuportável sofrimento. Há um caminho, e apenas um caminho, para sair do ciclo incessante de nascimento e morte do samsara, que é o caminho da liberação.


“Uma vez que a dor agora a preparou para o aprendizado, e seu coração está se abrindo à verdade, vou mostrar-lhe o caminho.”


Krisha Gotami ajoelhou-se aos pés do Buda e o seguiu pelo resto da vida.
Perto do fim, segundo se conta, ela alcançou a iluminação.



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quinta-feira, 15 de março de 2012

Bolinhos de arroz


-Chien, quando jovem, era um devoto estudante do Budismo. Ele estudou todos os conceitos e doutrinas e tornou-se muito hábil em analisar os termos mais complexos. Considerava-se um entendido em filosofia budista. Sabia de cor o Sutra do Diamante e orgulhava-se de ter escrito um longo comentário sobre ele.


Um dia, sabendo que em outra cidade havia um grande sábio que dizia coisas com as quais ele não concordava, resolveu viajar até lá para provar, pelo seu conhecimento, que o sábio estava errado. Colocou o comentário sobre o Sutra do Diamante embaixo do braço e partiu.

No caminho, encontrou uma velha que vendia bolinhos de arroz.

“Gostaria de comprar alguns bolinhos, por favor.”

“Que livros está carregando?”, perguntou a velha.

“É o meu comentário sobre o sentido verdadeiro do Sutra do Diamante, mas você não sabe nada sobre esses assuntos profundos”, disse desprezando a vendedora de bolinhos.
“Vou lhe fazer uma pergunta e, se puder me responder, eu lhe darei os bolinhos de graça”, disse a velha.
Ele aceitou o desafio.


“Está escrito que a mente do passado é inatingível, a mente do futuro é inatingível e a mente do presente é inatingível. Diga-me com qual mente você vai se alimentar?”, perguntou.


Hsüan-Chien não soube o que dizer.

“Sinto muito, mas acho que terá que comer bolinhos em outro lugar”, disse a velha.


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