quinta-feira, 20 de março de 2014

Dois vasos


Um monge levou a seu Mestre dois vasos de plantas.
“Deixe-o cair”, ordenou o Mestre.
O monge soltou um vaso.
“Deixe-o cair”, ordenou novamente o Mestre.
O monge soltou o outro vaso.
“Deixe-o cair!”, gritou o Mestre.
“Mas não há mais nada para deixar cair”, gaguejou o monge.

“Então, leve-os daqui.”

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quinta-feira, 13 de março de 2014


Desejo

Um amante suplicou durante vários meses os favores de sua amada, sem sucesso. Veio assim a sofrer as dores atrozes da rejeição. Finalmente, no entanto, sua amada cedeu: “Venha a mim em tal e tal lugar, em tal e tal hora”, disse ela.
Na hora e lugar especificados, o amante enfim se viu sentado ao lado de sua amada. Enfiou então as mãos no bolso e retirou um maço de cartas de amor que escrevera para ela ao longo dos últimos meses.
 Eram cartas passionais, expressando a dor que sentira e o desejo ardente de experimentar as delícias do amor e da união.
Os minutos foram se passando, mas ele continuava lendo as cartas, emocionado.
Por fim, a mulher disse:

- Essas cartas são todas sobre seu desejo por mim?

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quinta-feira, 6 de março de 2014

TÉDIO

 No caminho, encontrei um mendigo e me aproximei para lhe dar algum dinheiro. Ele, no entanto, tomou minha moeda e, com um olhar de desprezo, jogou-a no mato.
- Não preciso do seu dinheiro – rosnou.
– Por que você não me dá o seu tédio?
O que eu podia dizer? Quando dei por mim, estava respondendo que precisava antes consultar minha esposa. E fui embora depressa antes que ele me devastasse ainda mais.
Havia outras coisas sobre as quais eu planejara meditar em meu retiro, mas as palavras do mendigo continuavam me vindo à mente:
-“Por que você não me dá o seu tédio?”.
-Não, isso não! Preciso falar antes com minha esposa. Será que eu não poderia lhe dar alguma outra coisa? Você não entende a minha situação. Não posso.
Por quarenta dias eu resisti.
No quadragésimo dia, levantei-me, deixei o mosteiro e joguei o meu tédio em seu colo.
Sabe o que ele disse?

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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014


TRISTEZA E ALEGRIA

 Quando lhe perguntaram qual era o caminho certo, o da tristeza ou o da alegria o mestre respondeu:
- Há dois tipos de tristeza e dois tipos de alegria.
Quando um homem lamenta os infortúnios que lhe sobrevêm, e se acua num canto perdendo a esperança de ser ajudado, esse é o tipo ruim de tristeza.
O outro tipo é o pesar honesto do homem que sabe o que lhe falta.
O mesmo é verdade para a alegria.
Quem carece de sustância interior, é imerso em prazeres vãos, não senti essa ausência nem tenta preencher esse vazio, é um tolo. Mas a pessoa verdadeiramente alegre é como um homem cuja casa pegou fogo:
- Ele sente uma carência profunda na alma, mas logo começa a reconstruí-la.


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Treinador
  
O antigo treinador de cavalos falecera e o rei precisou contratar um novo. Lamentavelmente, porém, esse homem mancava ao caminhar.
Novos cavalos, todos animais magníficos, estupendos, foram trazidos para que treinasse, e ele os treinou com maestria: a trotar, a galopar, a puxar carroças e carruagens.

Entretanto, todos os novos cavalos também começaram a mancar. Finalmente, o rei convocou o treinador e vendo-o entrar na corte mancando, compreendeu tudo e imediatamente mandou contratar um novo treinador

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Modos

 Durante a refeição, numa congregação íntima e santa, os monges sentados à mesa do Mestre conversavam em voz baixa, os gestos comedidos, para não perturbar o Abade que estava mergulhando em pensamentos.
Era desejoso expresso e regra da casa do Mestre que qualquer pessoa podia entrar a qualquer momento e sentar-se à sua mesa. E nessa ocasião, como sempre acontecia, um homem entrou e sentou-se com os demais, que lhe abriram espaço embora soubessem-no grosseiro e mal-educado.
Não demorou muito e o homem tirou um enorme rabanete do bolso, e cortou-o em vários pedaços de tamanho conveniente e começou a comer estalando os lábios. Seus vizinhos de mesa não conseguiram conter a irritação por mais tempo:
- Seu glutão descarado – disseram para ele. – Como ousa ofender esta mesa festiva com seus modos de botequim?
Embora houvessem tentado falar em voz baixa, o Mestre logo percebeu o que estava acontecendo.
- É estranho, mas veio-me uma súbita vontade de comer rabanete. Um rabanete dos bons – disse. – Será que, por acaso, alguém aí teria um?

E, num arroubo de felicidade que dissipou toda a sua vergonha, o comedor de rabanetes ofereceu ao Mestre um punhado dos pedaços que havia cortado.

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O GRANDE VAZIO QUE TUDO CONTÊM


Como fui ordenado monge gostaria de fazer uma pergunta ao Mestre?
- Perfeito – respondeu o Mestre
-“O que é um monge?”
-“Você quer dizer de dia ou de noite?” respondeu o Mestre
O discípulo não respondeu, o Mestre continuou. 
- Um monge, como todos, é uma criatura de contração e expansão. Durante o dia ele esta contraído; atrás dos muros do claustro, vestindo um hábito igual ao dos demais, executando as tarefas de rotina que se espera que um monge realize. À noite, porém, ele se expande. Os muros são incapazes de conte-lo. Ele se move pelo mundo e toca as estrelas.
O discípulo comenta com um ar desconfiado
- Bem, durante o dia, em seu corpo verdadeiro...
- Espere – interrompe o Mestre, - Esta é a diferença entre nós e você. Vocês costumam supor que o estado contraído é o verdadeiro corpo. E é, de fato, em certo sentido. Nós aqui, porém, tendemos a partir do outro extremo, o estado expandido. Ao estado diurno nos referimos como o “corpo de medo”. E enquanto vocês julgam um monge por seu decoro durante o dia, nós tendemos a avaliar um monge pelo número de pessoas que ele toca à noite, e pela quantidade de estrelas.


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