quinta-feira, 16 de agosto de 2012


Provisão


Um homem vinha caminhando pela floresta quando viu uma raposa que perdera as pernas, e perguntou-se a si mesmo como ela faria para sobreviver. Viu então um tigre se aproximando com um animal abatido na boca. O tigre saciou a sua fome e deixou o resto da presa para a raposa.
No dia seguinte, Deus alimentou a raposa usando o mesmo tigre. O homem maravilhou-se da grandiosidade de Deus e disse a si mesmo:
- Também eu irei me recolher num canto, com plena confiança em Deus, e Ele há de prover tudo o que eu precisar.
Assim fez. Mas durante muitos dias nada aconteceu. Estava já quase às portas da morte quando ouviu um a voz:
- Ó, tu que estás no caminho do erro, abre os olhos para a verdade! Segue o exemplo do tigre e para de imitar a raposa aleijada.



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quinta-feira, 9 de agosto de 2012



A fuga



O Mestre estava caminhando pelo deserto com um irmão. Ao encontrarem um dragão, os dois saíram correndo. Mais tarde o irmão lhe disse:
- O senhor também teve medo?
O bom velho respondeu:
- Não tive medo, meu filho, mas foi bom eu ter corrido do dragão. De outra forma não teria escapado do espírito da vanglória.






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quinta-feira, 2 de agosto de 2012


O Peixe


O Mestre, quando esteve na Índia, passou perto de um edifício de aspecto estranho, na entrada do qual um eremita permanecia sentado com um ar de abstração e serenidade. O Mestre resolveu estabelecer algum tipo de contato com ele. “Um filósofo devoto como eu”, pensou, “certamente deve ter algo em comum com esse santo homem”.
- Eu sou um iogue – respondeu o eremita, em resposta à pergunta do Mestre – e devotei minha vida ao serviço de todas as coisas vivas, pássaros e peixes em especial.
- Peço-lhe que permita juntar-me a você – pediu o Mestre – pois, como eu pressenti, temos algo em comum. Os sentimentos que exprimiu tocaram-me fundo, pois um peixe certa vez salvou-me a vida.
- Que maravilha! – disse o iogue. – Ficarei encantado em admiti-lo à nossa presença. Há muitos anos me consagro à causa dos animais, mas nunca tive o privilégio de uma comunhão tão íntima com eles. Salvou a sua vida! É uma confirmação irrefutável da nossa doutrina sobre a inter-relação de todo o reino animal.
         Assim, o Mestre sentou-se ao lado do iogue por algumas semanas, contemplando o próprio umbigo e aprendendo algumas posturas bizarras. Por fim, o iogue lhe perguntou:
         - Agora que nos conhecemos melhor, se você julgar que pode partilhar a sua experiência sublime com o peixe que salvou-lhe a vida, eu ficaria mais do que honrado.
         - Não estou bem certo quanto a isso – disse o Mestre, - agora que conheço melhor suas idéias.
         O iogue, porém, insistiu, com lágrimas nos olho.
         - Pois bem, se você insiste – disse o Mestre. –  Mas não tenho certeza se você está preparado para a revelação que irei fazer. O peixe certamente salvou a minha vida. Eu estava quase morrendo de fome quando o pesquei e, graças a ele, tive o que comer por três dias.



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quinta-feira, 26 de julho de 2012




O jardim


 O Mestre decidiu fazer um canteiro de flores. Para isso, preparou o solo e plantou sementes de diversas flores belíssimas. Quando as flores nasceram, no entanto, viu que seu jardim estava cheio não apenas daquelas que escolhera e plantara, mas também atulhado de dentes-de-leão.
O Mestre foi então buscar conselho de jardineiros de toda parte e experimentou todos os métodos conhecidos para se livrar dos dentes-de-leão.
Tudo em vão.
Por fim, resolveu caminhar até a capital a fim de entrevistar-se com o jardineiro real do palácio do xeque. O sábio jardineiro, já velhinho, tinha aconselhado muitos outros jardineiros antes e sugeriu diversas soluções para acabar com os dentes-de-leão, mas o Mestre já experimentara todas. Ficaram então os dois sentados juntos em silêncio por um tempo, até que o jardineiro olhou para o Mestre e disse:
- Bem, então sugiro que você aprenda a amá-los.



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quinta-feira, 19 de julho de 2012

João Pequeno




Conta-se que João Pequeno disse certo dia a seu irmão mais velho:

- Quero me libertar das preocupações. Vou deixar de trabalhar para poder adorar Deus sem interrupções.

Dizendo isso, despiu sua túnica e partiu para o deserto. Mas, depois de lá ficar uma semana, voltou a procurar seu irmão. Quando bateu à porta, o irmão perguntou lá de dentro, sem abrir:

- Quem está aí?

- É João, seu irmão.

- João transformou-se num anjo – respondeu o irmão. – Ele não habita mais entre os seres humanos.

- Mas sou eu! – implorou João Pequeno.

Seu irmão, porém, recusou-se a abrir a porta, deixando-o desesperado do lado de fora até a manhã seguinte. Quando finalmente abriu a porta, disse:

- Vista sua túnica.

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quinta-feira, 12 de julho de 2012

A visita



O Mestre vivia em retiro numa caverna da montanha. Gerações após gerações de iogues eremitas haviam acabado por dotar essa caverna com uma porta, um altar de pedra, uma lareira e outras amenidades da vida civilizada. Mas nem por isso deixara de ser uma caverna austera na encosta da montanha, e era lá que o Mestre praticava meditação em solidão.


Certo dia, no final de um longo período de solidão absoluta, o Mestre recebeu notícia de que seus padroeiros iriam chegar no dia seguinte para trazer-lhe suprimentos, fazer oferendas e receber as suas bênçãos. O Mestre, portanto, limpou tudo, colocou as coisas no lugar e se preparou para a visita. Arranjou lindas oferendas em seu altar, tirou o pó e poliu todas as peças que haviam sido tão relegadas nos últimos meses. Quando terminou, deu um, passo atrás e observou o seu reino.


- Ah-yii! – exclamou ele de repente, com a voz aflita, ao observar a obra de suas mãos.


E enfiando a mão num canto escuro da caverna, pegou dois punhados de terra e lançou-os sobre o altar.


“Que venham e me visitem agora”, pensou ele consigo mesmo, satisfeito.



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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Rezar


Mestre era agora um homem velho, contemplando a sua vida. Estava sentado com amigos numa casa de chá narrando as suas histórias.


- Quando jovem, eu era cheio de fogo. Queria que todos despertassem. Rezava para ter forças para mudar o mundo. Na meia-idade, acordei certo dia e percebi que metade da minha vida se passara e eu não mudara ninguém. Rezei então para ter forças para mudar aqueles próximos de mim, que tanto precisavam. Agora estou velho e minha prece é mais simples: Agradeço por saber que mudar é difícil.


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