quinta-feira, 1 de novembro de 2012


O  General


Num tempo de guerra civil, certo general avançava implacavelmente com suas tropas, tomando província após província e destroçando tudo e todos que encontrava pela frente. O povo de uma cidade, ao saber que o general se aproximava e tendo ouvido histórias da sua crueldade, fugiu todo para as montanhas. O general e suas tropas encontraram a cidade vazia ao chegarem. De imediato, ordenou que vasculhassem toda a região e pouco depois alguns soldados retornavam dizendo que somente uma pessoa havia permanecido, um monge.
O general dirigiu-se ao templo desse monge, entrou com estrépito, levantou a espada e esbravejou:
- Você não sabe quem eu sou? Eu sou aquele capaz de lhe perfurar com a espada sem piscar os olhos!
O mestre Zen virou-se e respondeu serenamente:
- E eu, caro senhor, sou aquele capaz de ser perfurado pela espada sem piscar os olhos.
O general, ouvindo isso, curvou-se numa mesura e se retirou.


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quinta-feira, 25 de outubro de 2012


O juiz



Quando o Mestre era o juiz de seu vilarejo, uma figura desgrenhada entrou no tribunal, exigindo justiça.
- Fui emboscado e roubado, logo na saída desta vila. Alguém daqui deve ser o culpado. Exijo que encontrem o criminoso. Ele levou minha túnica, minha espada e até minhas botas.
 Deixe-me ver – retrucou o Mestre. – Ele não levou a sua camisa, que você ainda está vestindo.
- Não, minha camisa ele não levou.
- Nesse caso, o criminoso não é desta vila. As coisas são feitas por inteiro por aqui. Não poderei investigar o seu caso.


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quinta-feira, 18 de outubro de 2012



Mara

Certo dia, Mara, Deus da ignorância e do mal no budismo, viajava pelos vilarejos da Índia com seus assistentes quando encontrou um homem caminhando em meditação cujo rosto, maravilhado, estava resplandecente. O homem parecia haver acabado de descobrir algo no chão diante de si. Os assistentes de Mara perguntaram ao Deus o que o homem encontrara, e Mara respondeu:
          - Uma verdade.                    
          - Isso não vos incomoda, Ó Deus do mal, quando alguém encontra uma verdade?
          - Nem um pouco - respondeu Mara. - Logo em seguida eles costumam transformá-la num dogma.


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quinta-feira, 4 de outubro de 2012


A  jovem



O venerável Ananda, o monge assistente e discípulo mais próximo de Buda, estava passando certo dia por um pequeno vilarejo. Como estava com sede, aproximou-se do poço e, encontrando lá uma jovem, pediu a ela que lhe desse um pouco de água. Mas a jovem respondeu:
- Ó, grande monge, não sou digna de vos dar água. Por favor, não peçais isso de mim, pois eu só vos causaria impureza.
O venerável Ananda olhou-a com compaixão.



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quinta-feira, 27 de setembro de 2012


A criança de sal



Era uma criança feita de sal que desejava muito saber de onde viera. Partiu então em uma longa viagem, percorrendo muitas terras para tentar chegar a esse entendimento. Por fim, aproximou-se da orla de um grande oceano. “Que maravilha!”, pensou, e mergulhou um pé na água. O oceano instigou-a um pouco mais, dizendo:
- Se queres saber quem és, não temas.
A criança de sal foi entrando na água, dissolvendo-se a cada passo, até que exclamou:
- Ah, finalmente sei que eu sou.


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quinta-feira, 20 de setembro de 2012


O profeta



Um profeta chegou certa vez a uma cidade para converter seus habitantes. A princípio, as pessoas ouviram seus sermões, mas pouco a pouco foram se afastando até não restar uma única alma para ouvi-lo. Certo dia, um viajante lhe perguntou:
- Por que continuas pregando?
- No começo respondeu o profeta, - eu esperava transformar as pessoas. Se ainda hoje continho pregando, é apenas para impedir que elas me transformem.


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quinta-feira, 13 de setembro de 2012


O morto

                                                            
Há também a história do homem que adoeceu gravemente e parecia ter morrido. Seu corpo foi recolhido, purificado e colocado em um caixão.
Todos os preparativos para o funeral foram levados a cabo e os familiares chamaram um sacerdote. O caixão já estava sendo carregado para o cemitério quando ouviu-se batidas vindas de dentro. Colocaram o caixão às pressas no chão e retiraram a tampa. Enquanto as pessoas em volta murmuravam entre si, o homem falou:
- Não estou morto. Eu não morri. Vocês têm que me tirar daqui!
Mas o abade responsável pelo enterro retrucou:
- Desculpe-me, mas o senhor não pode estar vivo. O médico certificou a sua morte, e o sacerdote também a confirmou.
A tampa foi fechada de novo e o homem enterrado conforme planejado.




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